domingo, 9 de fevereiro de 2014

Carlos Drummond de Andrade


E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas,
pedregosa,e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco;
e aves pairassem no céu de chumbo,
e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior,
vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão
maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar toda uma realidade
que transcende a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério,nos abismos.
Abriu-se em calma pura,
e convidando quantos sentidos
e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos,em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas.

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