domingo, 9 de fevereiro de 2014

Fernando Pessoa

 

Tabacaria


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso,tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é ( E se soubessem quem é,o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real,impossivelmente real,certa,desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido,como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido,como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida,tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio,e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo,como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua,como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho,como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum,
talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

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